Quase Nada Sobre Quase Tudo

sábado, maio 12, 2007

"(...) Se antes de cada acto nosso nos puséssemos a prever todas as consequências dele, a pensar nelas a sério, primeiro as imediatas, depois as prováveis, depois as possíveis, depois as imagináveis, não chegaríamos sequer a mover-nos de onde o primeiro pensamento nos tivesse feito parar. Os bons e os maus resultados dos nossos ditos e obras vão-se distribuindo, supõe-se que de uma forma bastante uniforme e equilibrada, por todos os dias do futuro, incluindo aqueles, infindáveis, em que já cá não estaremos para poder comprová-lo, para congratular-nos ou pedir perdão, aliás, há quem diga que isso é que é a imortalidade de que tanto se fala."
(José Saramago, Ensaio sobre a Cegueira)

Antes de comentar meu primeiro livro do José Saramago,¨Ensaio sobre a Cegueira¨, vou explicar porque eu acho que não tive vontade de lê-lo anos atrás, quando tive o livro nas mãos por primeira vez: antipatia tremenda pelas idéias do escritor! Afinal, Saramago publicamente defendeu Stalin como libertador, esteve a favor do Muro de Berlim, considera Hugo Chávez e Fidel Castro como referentes legítimos além de ter apoiado o khmer vermelho do Pol Pot, sem esquecer que ele considera os judeus malvados e desculpa o terrorismo islâmico...

Separando a figura do escritor da sua obra confesso que gostei muito do livro e achei a escrita bastante peculiar e muito original.

Tudo começa quando um motorista, parado no sinal, se descobre subitamente cego. É o primeiro caso de uma 'treva branca' que logo se espalha incontrolavelmente e a crise gerada pela cegueira se move através da violência e da desumanização, fazendo com que os valores de igualdade e de respeito mútuo sejam deteriorados.

Saramago optou pelo anonimato das personagens, como uma maneira de universalizar a experiência, abrangendo todas as pessoas, todos os nomes. Ao fazê-lo, nós também, leitores, somos levados para o universo ficcional e experimentamos a cada página a dolorosa trajetória dos personagens do romance.

Existe no ¨Ensaio sobre a Cegueira¨, uma diferença sutil entre as atitudes de olhar e de ver. O olhar no sentido de percepção visual, uma conseqüência física do sentido humano da visão. O ver como uma possibilidade de observação atenciosa, de exame daquilo que nos aparece à vista - o que faz lembrar o ditado ¨o pior cego é aquele que não quer ver¨e nos alerta para a responsabilidade de termos olhos quando os outros os perderam.

Particularmente, tenho pânico à cegueira e achei o livro de uma violência atroz e por isso deixei o livro de lado algumas vezes mas é uma história que exige reflexão, assim como ¨1984" do Orwell, um dos melhores livros que li na vida.

O livro marca o leitor, até agora não consegui me livrar da visão e do cheiro de tanta miséria e de tanta merda que, no fundo, caracterizam este mundo...

¨É claro que dava pra fazer um filmão¨, pensei quando acabei de ler o livro, e vai mesmo ir pras telas do cinema com o nome ¨Blindness¨ com a direção do brasileiro Fernando Meirelles. Espero que ele tenha o cuidado de não transformar a história num filme bobo de zumbis! Li que as filmagens começam ainda este ano e serão rodadas entre Toronto e São Paulo, o lançamento está previsto para março de 2008.

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